Uma visita guiada à polifonia da primeira modernidade: um reportório com exactamente quinhentos anos, lido à primeira vista na Capela do Paço dos Duques de Bragança.
A década de 1520 marca a consolidação europeia da imprensa musical. O arranque dado por Ottaviano Petrucci em 1501 ganha então escala e regularidade: Paris, Veneza, Antuérpia, Nuremberga e Lyon afirmam-se como centros editores, e tipógrafos como Pierre Attaingnant, Andrea Antico e Jacques Moderne tornam-se actores de uma rede que estabiliza grafias, difunde modelos e favorece a circulação de obras e técnicas.
Passados quinhentos anos, a efeméride permanece pouco assinalada. Regressar aos motetes impressos nesse período permite ouvir a formação de uma linguagem musical comum e abrir o campo a autores e peças raramente, ou mesmo nunca, escutados.
Oito intérpretes — quatro cantores, duas flautas e duas violas de arco, braccio e gamba — lêem à primeira vista a partir de fac-símiles em escala real. A leitura interrompe-se sempre que é preciso explicitar uma escolha: um tempo, uma articulação, uma variante editorial. Pedro Sousa Silva faz a mediação musical; Pedro Braga Falcão comenta a teologia, as imagens e os códigos dos textos sacros, restituindo camadas de leitura que os compositores — em muitos casos eclesiásticos — conheciam intimamente.
O público entra livremente, coloca perguntas, pede repetições e pode regressar nos dias seguintes para acompanhar a evolução do trabalho. A selecção de conteúdos segue a curiosidade de quem está presente.
As flautas são réplicas exactas de originais de Sigmund Schnitzer (Nuremberga, c. 1520), escolha que aproxima a materialidade sonora e o gesto performativo do contexto em que os motetes foram impressos.
Capela do Paço dos Duques de Bragança, Guimarães
Entrada com o bilhete do Paço · permanência livre
Com o apoio do Município de Guimarães, através do programa IMPACTA, e do Paço dos Duques de Bragança — Museus e Monumentos de Portugal.